Já cantinas, só lá entrava se me arrastassem pelos cabelos. Há qualquer coisa de arrepiante em ver pessoas em mesas corridas, tudo a abocanhar a comida e, às vezes, com tão maus hábitos. Não é mariquice, é impossibilidade.
Comecei a reparar nisto nas colónias de férias. A hora das refeições era uma coisa absolutamente tortuosa. E por que é que isto me tem trazido dissabores? A primeira razão, e mais óbvia, é a puta do dinheiro que eu gasto a comer nos bares ou nos cafés na escola/faculdade em vez de gastar 2 euros e 20 na cantina. A segunda é o dar a impressão às pessoas que não me conhecem de que escondo algum segredo terrível que me impede de entrar numa cantina. Porque tooooda a gente sabe que é a única explicação para tão bizarro comportamento. «Ui ouvi dizer que ela assistiu a um homicídio numa cantina e, desde então, nunca mais foi a mesma.» Mas não, é mesmo só porque não gosto. A terceira é as oportunidades que se perdem. É do conhecimento geral que é na cantina que começa grande parte dos amores platónicos na escolinha, que se mandam os primeiros olhares tímidos, que se têm as primeiras conversas com o sexo oposto. Ora, eu não tive nada disto. Porque toda a gente se encaminhava para a cantina, na hora de almoço e eu era aquela que dizia «Então, vá, até daqui a pouco, bom almoço.» E as minhas horas de almoço nos inícios dos anos lectivos eram um bocadinho tristes. Com o passar do tempo, os meus amigos foram desmistificando a cena e percebendo que também se podia comer nos bares. Coincidência ou não, até hoje não conservo nenhum amigo que tenha o hábito de ir recorrentemente à cantina.
Começar a faculdade foi particularmente penoso porque toda a gente ia à cantina velha e eu, que queria ver como era ir a uma com mais idade em cima, fui uma vez. O problema é que a comida da cantina velha é muito boa. Mesmo boa, eu adoro aquilo. Só que havia o tal handycap. Então descobrimos uma maneira: para além de haver uma hora em que a afluência decai para aí em 90%, há umas mesinhas no 1º andar escondidas atrás de um biombo que são o paraíso. Não se vê vivalma. E é nestes dias que eu me sinto como se andasse de cadeira de rodas e tivessem descoberto uma maneira de subir escadas sem rampas.
«Então, mas olha lá, qual é o propósito deste texto?» Nenhum, rigorosamente nenhum.