terça-feira, 20 de julho de 2010

Cada um é para o que nasce (e devido tributo à cantina velha)

Pois é, acho que é chegada a hora de saberem uma coisinha sobre esta que vos escreve. Eu tenho uma aversão para lá de grande a cantinas. Em 8 anos, entrei qualquer coisa como três vezes numa cantina. Quatro no máximo. É que isto, parecendo que não, tem-me dificultado a vida e é uma coisa que se pudesse mudar, era sem hesitar. O tipo de coisa que ocupa o meu top 3 dos desejos que pedia ao génio da lâmpada. Limpinho. Não consigo ver um grupo maior de cinco pessoas a comer. É das tais coisas... Vou a restaurantes? Vou. Pouco, mas vou. Tenho jantares de família? Tenho, sim senhor. Mas são situações inevitáveis que uma pessoa come e cala (que trocadilho de nível). Agora, se puder escolher, vou a um restaurante com poucas pessoas, onde não haja mais que três por mesa e, de preferência, com um mau ângulo de visão para as outras mesas.
Já cantinas, só lá entrava se me arrastassem pelos cabelos. Há qualquer coisa de arrepiante em ver pessoas em mesas corridas, tudo a abocanhar a comida e, às vezes, com tão maus hábitos. Não é mariquice, é impossibilidade.
Comecei a reparar nisto nas colónias de férias. A hora das refeições era uma coisa absolutamente tortuosa. E por que é que isto me tem trazido dissabores? A primeira razão, e mais óbvia, é a puta do dinheiro que eu gasto a comer nos bares ou nos cafés na escola/faculdade em vez de gastar 2 euros e 20 na cantina. A segunda é o dar a impressão às pessoas que não me conhecem de que escondo algum segredo terrível que me impede de entrar numa cantina. Porque tooooda a gente sabe que é a única explicação para tão bizarro comportamento. «Ui ouvi dizer que ela assistiu a um homicídio numa cantina e, desde então, nunca mais foi a mesma.» Mas não, é mesmo só porque não gosto. A terceira é as oportunidades que se perdem. É do conhecimento geral que é na cantina que começa grande parte dos amores platónicos na escolinha, que se mandam os primeiros olhares tímidos, que se têm as primeiras conversas com o sexo oposto. Ora, eu não tive nada disto. Porque toda a gente se encaminhava para a cantina, na hora de almoço e eu era aquela que dizia «Então, vá, até daqui a pouco, bom almoço.» E as minhas horas de almoço nos inícios dos anos lectivos eram um bocadinho tristes. Com o passar do tempo, os meus amigos foram desmistificando a cena e percebendo que também se podia comer nos bares. Coincidência ou não, até hoje não conservo nenhum amigo que tenha o hábito de ir recorrentemente à cantina.
Começar a faculdade foi particularmente penoso porque toda a gente ia à cantina velha e eu, que queria ver como era ir a uma com mais idade em cima, fui uma vez. O problema é que a comida da cantina velha é muito boa. Mesmo boa, eu adoro aquilo. Só que havia o tal handycap. Então descobrimos uma maneira: para além de haver uma hora em que a afluência decai para aí em 90%, há umas mesinhas no 1º andar escondidas atrás de um biombo que são o paraíso. Não se vê vivalma. E é nestes dias que eu me sinto como se andasse de cadeira de rodas e tivessem descoberto uma maneira de subir escadas sem rampas.

«Então, mas olha lá, qual é o propósito deste texto?» Nenhum, rigorosamente nenhum.