Ir a uma oral. A primeirinha oral. A rebentar de nervos pelas costuras. Chegar ao corredor e deparar-me com uma filinha com um número considerável de desgraçados que, como eu, estão prestes a baldar-se para o lado de lá. «Eeeh laa que há aqui alguma coisa errada.» E, de facto, há. Todos, atenção, todos sem puta de excepção, vão de fato. Eles e elas. Uma ou outra com uma sainha muito recatada pelo joelho e de sapatinho lá de 1934. «C'um caralho, enganei-ne na faculdade e enveredei pela de Direito. Deixa-me sair daqui sem ninguém reparar.» Mas não, não senhor. Cheiro a merda que emana dos ratos que estão no laboratório 2? Check! Casas de banho com os símbolos trocados? Check! Paredes com infiltrações, tacos do soalho levantados, anúncios de adopção de gatinhos, manifestações e palestras? Check, check, check! Estou na minha faculdade.
Levantem-se as vozes «Então mas qual é que é a cena?». A cena, caralho, é que eu envergo um vestidinho roxo beeeem acima do joelho, directamente da feira de Carcavelos, os mai bonitos chanatos verdes de 5 euros que consegui encontrar, o cabelo cheio de emaranhados da merda de rabo-de-cavalo que fiz no alto da cabeça, suo em bica e arrasto a mala porque o calor dá cabo de mim. «Oh meu deus, que ninguém avisa ninguém que isto é como uma audiência! Ninguém diz que não é para vir como se tivesse acabado de acordar ali no parque de estacionamento? Não hei-de eu chumbar, deve estar ali dentro uma equipa de psicólogos e jurados só para avaliar o meu ar. Claro que vou chumbar!»
Meto-me na casa de banho, domo o meu cabelo, puxo sem efeito a bainha para baixo, tento colar a pouca sola que o chanato direito tem, lavo a carinha e ponho o creme das mãos na cara e no pescoço para parecer que é perfume. Vou para a fila e espero, sinto-me tão somente... estúpida.
Entro e fico a olhar para o homem a tentar articular um «Eu peço desculpa, nunca tinha vindo a uma oral, eu não sabia que devia vir vestida mais apropriadamente.». Ele larga uma gargalhada ante o meu ar de desespero e embaraço, suponho. Levanta-se e eu vejo uns calções que, se não eram de banho, pareciam, às flores, uma camisa verde-alface e umas havainas. E diz-me um «Até que enfim que alguém nesta sala está vestido de acordo com a idade!». E saem-me pelo menos 10 kg de cima. Todos de estupidez e vergonha.
Saio de lá, olho para a fila que ainda se estende e grito um silencioso «INCHEEEEEM!». Vou-me embora a ouvir na minha cabeça «Oh no no walk out the door, just turn around now 'cause you're not welcome anymore» e imagino toda a gente a prestar-me vassalagem. Porquê? Não sei, esta música sempre me soou a um grande «Mas quem é que sabe andar nesta merda?».
P.S: Passei? Não, não passei. A minha vida não é um filme, não é?