quarta-feira, 14 de julho de 2010

Caro karma,

Quando eu era miúda, adorava magoar-me. Adorava cair, esmerdar-me, virar-me ao contrário, raspar com os joelhos, os cotovelos e tudo o que metesse sangue. Aliás, só era possível gostar mais se tivesse assistência. Ui, aí é que era uma alegria. Gostava da atenção e dos olhares de pena. Mas tinha especial apreço pelas reacções das pessoas quando me acontecia alguma coisa sensacional e elas tinham aquele ar de «Mas como é que ela sobreviveu?». E eu gostava dessa sensação de ser uma heroína dos tempos modernos a quem tudo de mau acontecia e ela se erguia no meio dos escombros. Brutal. Hoje percebo que, aos olhos dos outros (dos adultos, digo) era uma miúda que tinha acabado de cair e que eles só diziam «Ui que forte que tu és.» para eu não começar a chorar. Mas eu não ia chorar porque estava contente porque tinha caído. Os putos, como eu, os olhares desses era mesmo de admiração, que eu sei.
Outra coisa, quando caía ou cortava alguma coisa e não havia pessoas para ver, eu exibia o arranhão, o corte e embelezava a história de como tinha acontecido. Pronto, inventava uma bocadinho. Porque não tinha grande interesse dizer que tinha ido contra uma porta, era até estúpido, quando podia dizer que tinha caído da varanda ao tentar salvar um gatinho que estava preso no telhado. A coisa ia dar mais ou menos ao mesmo, a ferida estava lá.
Mas pronto, quem diz magoar-se, diz outra coisa qualquer que chamasse a atenção. E eu tinha sorte porque essas coisas aconteciam-me com relativa frequência. Tinha a certeza que quando quisesse que passasse, passava.
Ora, hoje tenho 20 anos, já não acho grande piada a estas merdas e elas continuam a acontecer. A diferença é que, quando somos miúdos, as pessoas têm pena, somos amorosos e fofinhos. Quando nos acontece e temos 20 anos, somos patéticos e desajeitados. É aqui que tu entras, caro karma. Tu és fodido. «Querias, não querias? Então toma lá.»
Hoje em dia, se deixas cair o passe na linha do metro enquanto ele não vem, se cais/escorregas com mais frequência do que as pessoas todas, se a alça da mala de estraga e ela te cai e espalha tudo o que lá está dentro, és só otário. E eu não conheço mais ninguém a quem aconteça tanta coisa estúpida tantas vezes. É desesperante. Se não, vejamos: no outro dia estava na paragem do autorcarro e, ao reparar que ele estava a chegar, virei a cabeça (não mais rapidamente do que qualquer outra pessoa) e os óculos voaram. Voaram e aterraram na estrada onde o autocarro ia passar. Foi ver-me a esbracejar no meio da rua, para que ele parasse um bocadinho mais atrás para apanhar os óculos. Havia necessidade disto? Escrevo para ver se encontro uma razão, mas só me parece mais estúpido. No mundo real, os óculos não voam da cara das pessoas, não se deixa cair o passe na linha do metro, não se cai a andar em chão liso e direito. Só mais isto: por que é que as portinhas do metro se fecham SEMPRE quando eu ainda estou a passar? Porquê? Aquilo dói, aquilo tem força, aquilo faz barulho e toda a gente fica a olhar enquanto eu tento continuar o meu caminho triunfantemente como se não tivesse acabado de ser abalroada por umas portinholas de plástico.
Não, a sério. Karma, 'bora lá acabar com esta merda. Já não tem piada, desculpa, antes eu era pita, era parvinha, não sabia o que queria. Agora já não tem piada.
Atenciosamente e esperando ardentemente uma mudança, uma prova de boa fé,
Leonor