Hoje despedi-me. Contava com drama, acção, portas a bater, um adeus-seus-filhos-da-puta-espero-que-morram, no limite. Mas não, tudo muito cordial, tudo muito morno... Afinal é só dar uma cartinha a dizer que sim, senhor, gostei muito mas não tenho vida para aquilo e não tenho especial apreço por exploração e humilhação gratuitas. E já se foi o meu pesadelo aos fins-de-semana. Ainda tenho que trabalhar mais um mês. Óptimo, I can handle it.
E assim me vim embora a convencer-me que a minha vida nunca há-de ter uma cena à Chicago, com cenas de tirar o fôlego e de mais tarde relembrar. E eu conseguia viver com isto, a sério que sim.
Mas o que tem que ser tem muita força e lembrei-me de ir comprar umas merdas que faltavam aqui por casa. Pois bem, o ponto alto do meu dia não foi o despedimento, mas sim o Sr. Dr. Cabrão de Malho que dei algures na secção dos champôs. Um malho como há muito aquele supermercado não via, isso garanto. Há quem diga que a culpa terá sido da mania bonita que eu tenho de não levantar os pés quando ando em chão escorregadio (que o chão dos supermercados tem o seu quê de escorregadio, toda a gente sabe), mas sim deslizar qual patinadora-patinadora-à-caixa-central. Haverá, com certeza, quem diga que é porque tinha os atacadores desapertados (sim, mais depressa me hão-de ver a cair do que a baixar-me em público para apertar os ténis, é uma coisa que me faz espécie). Possivelmente. Eu continuo a achar que o que tem que ser tem muita força. E o que tem que ser não está de modos. Há aquelas pessoas que sabem cair com dignidade, com postura, com uma qualquer graciosidade, que as há. Depois há eu. Há eu e todo um chinfrin de quem sabe que já se esmerdou completa e vergonhosamente e ainda faz questão de chamar a atenção porque ou sai um gritinho histérico ou um valente «Eia c'um caralho que já me fodi» (mas isto muito muito rápido, o que confere dez vezes mais piada à coisa, juro). E isto não costuma abonar a meu favor, porque, regra geral, as pessoas que por lá se passeiam deixam logo de sentir compaixão por mim, que entretanto me encontro no chão de joelhos a tentar apanhar toda a merda que me caiu das mãos e da puta da mala, e se saem com um «Malcriadona hunf!». É então que me levanto, p'ra lá de azul, e continuo a minha vidinha, mais envergonhada por ter passado a imagem de barraqueira sem educação do que por causa da queda, que essas calham a todos.